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Artigos Transpessoal

Uma Experiência com a Terapia da Mandala na Cura do Self

mandala

Por: Ana Paula de Godoi Nasciutti Barros
Artigo apresentado como requisito parcial de avaliação do curso de transpessoal ministrado pelo Instituto Serra da Portaria

Resumo
A escolha do tema mandala veio da vontade de escrever sobre minha própria experiência desenhando mandalas. Tem como finalidade mostrar o processo e os resultados de uma experiência bem sucedida com a técnica do desenho da mandala. Foi um processo de auto-cura e autotransformação, quando minha vida parecia totalmente sem sentido, desconectada do mundo real, onde o pensamento estava sempre questionando se estava viva ou morta. A técnica me ajudou a enfrentar situações de pânico e de desorganização mental me trazendo de volta à realidade, voltando pro meu eixo, reintegrando meu eu físico, mental e espiritual. Este trabalho configura-se uma reflexão entre a técnica e minha experiência, na tentativa de mostrar a eficiência e o poder de um elemento usado desde os primórdios da humanidade, o circulo. Ao final da experiência me senti reconectada novamente ao mundo. Me sentindo mais equilibrada emocionalmente e espiritualmente.

Palavras-chaves: mandala, auto-cura, psicologia transpessoal, experiência, psicoterapia.

Uma Experiência com a Terapia da Mandala na Cura do Self
Instituto Serra da Portaria

Desde as antigas civilizações, o homem é um ser artístico. Verifica-se em todos os cantos da terra manifestações artísticas de todas as formas. Dentre essas formas a mais antiga é o circulo. A forma do círculo está presente desde a adoração primitiva do sol, na arquitetura, podendo ser o plano básico das construções seculares e sagradas de todas as civilizações na organização das cidades antigas, medievais e modernas. Aparece nas mandalas desenhadas pelos monges tibetanos, em mitos, sonhos e indica o aspecto mais importante da vida, sua extrema e integral totalização. O círculo abstrato aparece também na pintura zen e como escreve um mestre zen a respeito de um quadro do famoso sacerdote zen Sangai chamado O círculo, “Na seita zen, o círculo representa o esclarecimento, a iluminação. Simboliza a perfeição humana” (Jung, 2008, pág. 324).
A mandala é usada como um desenho que exerce diferentes sentidos em sua história. Para o hinduísmo e o budismo, a mandala é usada como um símbolo sagrado no ritual como forma de guia para a meditação. No Tibet já torna mais complexo, é um símbolo cósmico usada como instrumento contemplativo visual em meditações budistas. (Jung, 2008, pág. 324).
O homem adulto busca o sentido de totalidade ou integridade por meio da união do consciente com os conteúdos inconscientes da sua mente. Dessa união, Jung chamava de “função transcendente da psique”, onde o homem alcançava a plena realização das potencialidades do seu self . Os símbolos de transcendência são aqueles que representam a luta desta busca. Fornecem meios de expressão desse inconsciente podendo penetrar no consciente (Jung, 2008).

Psicologia Transpessoal e a Terapia da Mandala

A Psicologia Transpessoal é uma abordagem considerada a quarta força dentro da psicologia. Desenvolvida com base nos novos conceitos da Física Quântica, na psicologia de C. Jung, na psicologia budista tibetana e com o próprio Movimento Transpessoal das décadas de 60 e 70. A visão de mundo da Psicologia Transpessoal não é dual e sim de um todo integrado em harmonia, onde tudo vibra em ressonância e não há separação. Como psicoterapia, propicia à pessoa trabalhar suas dificuldades em diversos níveis, experimentando outros estados de consciência onde lhe darão condições de perceber que ela não é apenas só corpo, mente e emoções, a fará entrar em contato com uma realidade mais sutil, não perceptível aos cinco sentidos. Ajudando-a encontrar respostas como de onde eu vim? Para onde eu vou? Quem sou eu? Qual o sentido da vida? A palavra Transpessoal já define esta visão, onde trans significa através, além do pessoal (DÁssumpção, s/d).

Na psicologia temos várias ferramentas para integração do self. Uma destas técnicas é o desenho livre da mandala. Mandala é uma palavra em sânscrito, significa circulo, centro. Por meio desta técnica, o cliente pode expressar de maneira profunda o retrato de sua psique no momento em que ela é feita. O estudo e interpretação da mandala na psicoterapia vai além da interpretação simbólica, é um caminho de intuição pra chegar na essência de quem a fez (DÁssumpção, s/d).

Neste sentido existe no desenho da mandala, várias funções, a de ajudar a pessoa chegar no seu inconsciente com a sua interpretação e a função simples de auto-cura, onde o simples fato de desenhá-la já é integrador da consciência do self com a sua inconsciência. Em momentos de crise a pessoa pode desenhar mandalas no intuito de expurgo, colocar pra fora sentimentos que possam estar bloqueados, raivas, angústias fazendo ela voltar pra seu centro, seu eixo. Fora das crises, o desenho da mandala desperta na pessoa conteúdos inconscientes, fazendo uma integração do self, num processo de auto-cura.
A doença é resultante do desequilíbrio, é resultante de nós termos nos esquecidos de quem somos, de nossa essência. Para manter a saúde, devemos manter uma profunda ligação consigo mesmo e com o propósito de sua vida, tanto a nível pessoal quanto universal. Ao desenhar mandalas, entramos em contato com nosso eu mais profundo, reintegrando as nossas partes que vão sendo deixadas ao longo de nossa vida (Brennam, 1987).
Desenhar mandalas regenera e cura o nosso poder interno de nossas mentes; relaxa, acalma a mente e o corpo; faz o invisível virar visível; faz dar forma e expressão para nossas intuições espirituais iluminando nossas almas. Para tirar o máximo proveito do trabalho com a mandala, devemos suspender temporariamente crenças negativas, abrindo a mente e se entregar para esta possibilidade de cura de maneira genuína. O poder do círculo como símbolo, em todo o mundo, nos níveis evolutivos da consciência é poderoso e universal (Cornell,1994).

A experiência

Aprendi a fazer mandalas no curso de Psicologia Transpessoal. No começo, tive muita dificuldade em me permitir desenhar da maneira solta sem ficar racionalizando o desenho. Mas, certos momentos da minha vida, onde vivi o caos, com um pouco da consciência que me restou, me lembrei de desenhar mandalas. A primeira crise veio da pressão que sofria em resolver meus problemas pessoais. Foi em uma noite antes de ir dormir, entrei numa depressão forte e em um pânico que a única certeza que tinha é que iria morrer. Algo me fez pegar o material de mandala e começar a desenhar, desenhei folhas e folhas de papel compulsivamente entre gritos e choro. Em minha cabeça passava muitas cenas de violência, com o sentimento de frustação e medo. A medida que ia desenhando sentia que todo o meu pânico foi parando no papel, e assim, depois de muito desenho fui acalmando, voltando pro meu eixo, me recompondo psicologicamente. Levei as mandalas para a terapia, o que foi muito desagradável, pois o simples fato de olhá-las me fazia tremer. Ao final, consegui queimá-las em um ritual com muito respeito àquela energia, mentalizando e pedindo que aquela energia voltasse para o lugar de origem. Depois desse episódio, tive outros mais leves. Acordava no meio da noite, o pensamento imediato era estou viva ou morta? Então, me levantava, e ia desenhar mandalas até relaxar e voltar a dormir. E assim foram por vários meses. A última crise foi em no penúltimo módulo do curso de transpessoal, que o tema era musicoterapia. No dia anterior tive um momento difícil de resolver e me sentia muito frágil e adoecida. No módulo, fui em busca da cura da minha essência. E de fato, vivi um momento muito intenso e profundo. No segundo dia, cheguei atrasada e a turma estava fazendo um exercício e não quis interromper, fiquei fazendo mandalas. Fiz várias muito difíceis, com conteúdos bem fortes, onde me sentia muito machucada, como se tivesse espinhos fincados por todo o meu corpo e estivesse amarrada sangrando. Fui entrando em consciências bem profundas. Coincidência ou não, quando voltei para a sala, o próximo exercício era fazer uma mandala sonora. A mandala sonora consistia em imaginar uma folha de papel bem grande com um círculo no meio e começar a pintá-la com a voz. Comecei bem timidamente soltando um aaaaaaa baixinho, de repente, veio uma voz de dentro de mim, que vinha da minha pelve e passava direto subindo pelo o meu corpo saindo pela a minha boca, era mais forte do que qualquer vontade de reprimir aquela energia que ia saindo. Era totalmente involuntário, uma dor profunda que saia de dentro de mim em um grito só. Pela minha cabeça veio uma consciência de um sofrimento intenso de uma índia perdida numa floresta. Tremia e gritava muito, num processo doloroso. Passado um tempo, o grupo foi se juntando ao redor de mim, cantarolando uma canção suave e assim fui me acalmando e me entregando àquela energia curadora e aconchegante. Depois disso, não tive mais nenhuma crise, o pânico não voltou mais. As noites ficaram tranquilas apesar dos meus problemas pessoais ainda não terem sido resolvidos totalmente. Continuo fazendo mandalas agora num processo mais tranquilo, de resgate da minha essência, entrando mais em contato comigo mesma, ficando mais próxima de quem eu sou.

Considerações Finais

A técnica do desenho da mandala é um instrumento fácil de ser utilizado. Ressalto aqui a importância de um olhar além do que se vê na psicologia tradicional e na psicoterapia. Nos meus momentos de crise, se estivesse ido ao um psiquiatra, com certeza sairia de lá com vários remédios receitados e quem sabe até uma internação, com diagnóstico fechado da minha “loucura”. O que está em jogo é o ser humano, e como ser humano cada um carrega em si suas singularidades, e é dentro desta singularidade que devemos olhar a pessoa para realmente ajudá-la. Existem várias dimensões psíquicas, a psicologia transpessoal vê o indivíduo como um ser bio-psico-social-espiritual. O trans, significa além do pessoal, buscando integrar todas as dimensões da experiência humana. O potencial terapêutico das experiências que acontecem com uma visão mais ampliada da consciência ultrapassa a história biográfica da pessoa (Ferreira, 2011).

As experiências transpessoais podem com frequência [...] produzir drásticas e duradoras mudanças psicológicas de caráter benéfico. Podem resolver dilemas existenciais e inspirar um interesse compassivo em relação à humanidade e ao planeta. Uma única experiência transpessoal pode, como efeito, mudar para sempre a vida de uma pessoa. Além disso, a ausência de tais experiências pode estar por trás de uma parte considerável das patologias individuais, sociais e globais que nos cercam e ameaçam (Ferreira, 2011, p. 25).

A ciência moderna ainda não é capaz de saber exatamente a ligação entre o corpo e a mente, mas o beneficio de fazer mandalas independe da ciência para comprovação. Devemos deixar nossa mente aberta para novas experiências e processos de cura. O símbolo da mandala contém uma variedade evolucionária de níveis de consciência que é poderosa e universal (Cornell, 1994).
A partir das observações e pesquisas antropológicas de Yung, concluiu-se que desenhar círculos frequentemente é terapêutico, pois propicia energicamente a integração do ego. A mandala ajuda a buscar sentimentos, emoções profundas do inconsciente e trazer para o consciente na tentativa de integração possibilitando uma vida mais plena. Entrar nesses conteúdos e conhecer nossa própria essência requer coragem e determinação, por isso é também importante estar dentro de um processo psicoterápico com um profissional para auxiliar neste caminho (Catarina, 2009).


Referências

Brennam, B. A. (1987). Mãos de Luz. Um guia para a cura através do campo de energia humana. SP. Ed. Pensamento.


Catarina, M. S. (2009). Mandala o Uso na Arteterapia. Rio de Janeiro: Wak Editora.

Conrenll, J. (1994). Mandala: Luminous symbols for healing. Wheaton, Illlinois, USA: Quest Books.

DÁssumpção, G. (s/d). Psicologia Transpessoal.

Ferreira, N. G. (2011). Psicologia Transpessoal Centrada no corpo: Referências para uma psicologia do ser. Em N. G. (org.), Ferreira, Psicologia Transpessoal (pp. 21-35). Goiânia: Editora PUC-GOIÁS.

Jung, G. C. (2008). O Homem e seus Símbolos. Tradução de Maria lúcia Pinho. 2 ed. Especial . RJ: Editora Nova Fronteira.